Resenha sobre o livro

Recônditos do mundo feminino

Autoras: Marina Maluf e Maria Lucia Mota

 

           

            As autoras Marina Maluf e Maria Lúcia Mott descrevem em seu livro Recônditos do mundo feminino o comportamento da mulher nas primeiras décadas século XX, enfocando as transformações ocorridas no comportamento feminino, mudanças essas que abalaram a sociedade brasileira vigente da época.

            Segundo a pesquisa feita por Maluf e Mott, as mulheres dessa época começaram a burlar costumes conservadores da época. Mudanças de hábitos que fomentaram debates entre os progressistas e conservadores sobre o novo comportamento feminino.As autoras citam que um dos novos comportamentos femininos da época era andar sozinhas pelas ruas, coisa que para mulher era uma ousadia, sendo depreciado pelos conservadores do início do século XX. A mulher nessa época segundo as autoras  só poderiam sair acompanhadas pelos parentes ou com o seu marido, nunca sozinhas.

            No âmbito das transformações comportamentais da época ,as cidades estavam também no processo de mudanças ,segundo as autoras Marina Maluf e Maria Lúcia Mott “Diante da variedade de questionamentos ,experiências e linguagens tão novas que as cidades passaram a sintetizar ,intelectuais de ambos os sexos elegerem como legítimos responsáveis pela suposta corrosão da ordem social a quebra de custumes ,as inovações nas rotinas  das mulheres,e principalmente ,as modificações nas relações entre homens e mulheres .”Diante a essas transformações sócio-culturais vinda com a modernidade ,o âmbito familiar também sofreu mudanças com o novo comportamento feminino.Segundo Mota e  Maluf houve protestos entre os meios de comunicação a exemplo da Revista Feminina em Agosto de 1920 escrevendo o seguinte comentário.

Hoje em dia preocupada em frivolidades mundanas, passeios, chás, tangos e visitas, mulher desertado lar [...]. (pg. 373).

            O papel reservado a mulher nessa época era de esposa e mãe e não de um ser humano que tinha seus próprios desejos e anseios. As autoras citam que havia uma desumanizarão da mulher como sujeito histórico.

            “O dever ser das mulheres brasileiras nas três primeiras dedadas do século foi, assim, traçado por um preciso e vigoroso discurso ideológico, que reunia conservadores e diferentes matizes de reformistas e que acabou por desumaniza-las como sujeitos históricos ,ao mesmo tempo cristalizava determinados   tipos de comportamento convertendo-os em rígidos papéis sociais” (pg. 373). Os papéis que desumanizava a mulher eram defendidos pela igreja e pelo código civil .Maluf e Motta descrevem que o código civil de 1916, declarava a inferioridade da mulher casada ao marido .Ao homem chefe da sociedade conjugal ,cabia a representação legal da família ,a administração dos bens comuns do casal e dos particulares da esposa secundo o regime matrimonial adotado ,o direito de fixar o local de domicílio da família .A vida da mulher dependia totalmente da decisão dos homens ,pais ,maridos ou juízes.

            A partir das pesquisas feitas pelas autoras sobre a condição feminina nos primeiras décadas do século XX, relatando que a lei legitimava ao homem propriação e a distribuição dos recursos materiais e simbólicos da família ,o uso da violência  considerada “legítima”.Fazendo da vítima a (agredida) o réu e do culpado (agressor) a vítima perante código civil .A exemplo do caso citado pelas autoras no ano de 1928 na cidade de São Paulo.O Código Civil de 1916 interpretou o modo como cada um dos cônjuges deveria ser apresentado socialmente .Um conjunto de normas e obrigações sociais.Não havia possibilidades de troca de papéis dos cônjuges .Dona Cora de Magalhães pediu o desquite ,pois alegava ter uma vida de vexames e humilhações vindos de seu marido o senhor Manoel Martins Erichsen.O mesmo solicitou a ren cônjuges reconvenção do processo alegando que a esposa Dona Cora de Magalhães tinha o repudiado seu esposo o senhor Manoel Martins Erichsen .No final desse dilema a Dona Cora de Magalhães foi repelida pelos seus julgadores e seu Manoel Martins Erichsen foi dado como a grande vítima da história conjugal,algo que segundo pesquisas era algo normal para época.

            Segundo dados pesquisados pelas autora,havia no início do século XX ,um recurso de violência física a mulher,algo que se dava sob proteção dos costumes da sociedade .A violência se estendia as classes sociais que  legitimavam  a agressão contra a mulher, a classe superior castigava a classe subalterna ,categoria dada aos excluídos socialmente.A classe pobre da época segundo as autoras ,incorporavam ao costumes da elite .

Mesmo com os costumes pré-estabelecidos pela sociedade burguesa, ocorria sucintamente mudanças de  comportamentos de homens e mulheres ,principalmente no

período da urbanização das cidades brasileiras.Mudanças essas de comportamento vindos com o período da urbanização e industrialização são citadas por Maria Barbosa de Araújo: “Acreditar que no caso do Rio de Janeiro prevalecia uma dupla moral,responsável pelas rupturas de equilíbrio e pelas explorações de conflitos dentro di lar ,muito presentes no período [...] segundo ,um sistema rígido de valores que exigia coerência de comportamento ,tanto na esfera doméstica quanto fora dela ,algo bastante difícil num período de urbanização e industrialização crescentes ,quais convocavam os indivíduos e a família para novas formas de associação e lazer,ao mesmo tempo que ofereciam outras oportunidades,ainda  que desiguais,de trabalho.”(pg.385)

            A dissolução dos costumes deixou temerosos os tradicionalistas que utilizavam os variados discursos sobre a família e o casal dentre os defensores dos velhos costumes estavam alguns literários, religiosos, médicos e jurídicos. Esses indivíduos decretavam o seguinte segundo o texto. “A partir de meados do século passado, que era no lar, no seio da família, que se estabeleciam as relações sexuais desejadas e legítimas, classificadas como decentes e higiênicas” (pg. 387).Esse decreto faz-se pensar na domesticação que esses indivíduos moralistas  pregavam contra  o desejo sexual  entre homens e mulheres dessa época ,ainda muito difundido nos tempos de contemporaneidade.

 

 

           

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