O corpo, produtor de movimento, é um bólido que se move circunscrito em espaço e tempo, desenha formas em fluxos incontáveis. De acordo com Izabel Stuart (in PEREIRA; SOTER, 1998, pag. 191), é da qualidade do movimento perecer: a memória humana não supre as necessidades do registro das combinações possíveis de ações de movimento do corpo que dança. A natureza efêmera da obra coreográfica é uma dificuldade para os historiadores da dança que

[...] se realiza no movimento. Isto significa que ela desaparece no momento em que é vista. Impossível resgatar o tempo da dança e recuperar um movimento já executado. Mesmo a repetição de seqüências previamente elaboradas nunca são uma reprodução fiel, mas antes uma reapresentação (STUART in PEREIRA; SOTER, 1998, pag. 191).

Demanda energia e esforços para registrar as informações produzidas pela dança e essa arte que segue o ritmo acelerado do confuso tempo contemporâneo – padrão relativo e elástico, dadas as variadas percepções – confere à tecnologia a responsabilidade do encontro com ela para ampliar as possibilidades de retenção dos dados que a célula nervosa não registra imediatamente: o movimento tem tempo mais rápido que a memória. A repetição é uma estratégia usada para memorização do impulso motor, mas ela proporciona ao corpo a descoberta de novas possibilidades de movimento a cada experimentação ou tentativa de retenção do que foi executado. Nessa busca de memorização, novas formas surgem com novas texturas, durações, fluxos... Nesse sentido, esbarra-se com a proposição de Stuart (1998): o movimento perece, pois sempre será repetido com outra qualidade ou com variações, mesmo que ínfimas, do que Rudolf Laban (1978) chamou de “fatores de movimento”. No trabalho de Pina Bausch, “a repetição do mesmo movimento traz mais e mais distorções, provocando múltiplas e imprevisíveis interpretações e experiências” (FERNANDES, 2000, pag. 126). Repetir é estratégia de reorganizar, manipular a informação. A dança é a arte do perecer? O movimento de dança perece, sepultado nos olhos do espectador ou na lente da câmera? Assim parece, pela experiência do repetir porque

[...] o desejo de “reconstituição” jamais alcança seu objetivo. [...] O que nos leva a crer que tampouco exista uma dança, mas várias (STUART in PEREIRA; SOTER, 1998, pag. 192).

Tomando como base esse pensamento, responde-se ao questionamento anterior: a dança não é uma arte que celebra a morte do movimento. É a arte da (re)invenção. Cada novo instante é um novo contexto para o corpo que dança, sujeito a variações de fatores internos e externos. Assim sendo, remontagens de obras de dança são sempre novas obras. O objeto produtor do movimento é outro: o corpo. A sapatilha de dança da bailarina que dança o papel principal de um balé de repertório, em 2011, não é a mesma sapatilha do século passado. A tecnologia que mudou a forma da sapatilha de ponta, alterou o corpo da bailarina, corpo este que também não é o mesmo, dadas as relações de troca entre natureza e cultura: biologicamente, este corpo foi alterado pela cultura, e vice-versa. Por outro lado – e, de outro lado - pela perspectiva do observador ou espectador, outros fatores tecnológicos foram também alterados, alterando também a percepção do corpo que dança: a iluminação cênica, a textura e costura dos tecidos que veste a bailarina, até mesmo o shampooque ela usa ou a sua maquiagem são outros. Alguns fatores agem alterando tanto no observador do corpo que dança quanto no corpo observado. A mudança é inevitável na dança, regida pela relação espaço X tempo: por mais que se tente reproduzir uma obra, sempre haverá mudanças. Cada apresentação de dança é uma estréia. Se o movimento perece, assim como o corpo, estamos falando de uma arte que se reinventa, não se reproduz igualmente. O corpo muda, o tempo muda, as condições mudam e a tecnologia muda, constantemente. Novos jogos de dados, produzidos por corpos que se reconfiguram. Como na dança da vida de Shiva, o deus da dança que equilibra o universo: a metáfora da destruição e do renascimento parece uma analogia para as mudanças que sofrem os sistemas que trocam informações, onde um sistema está sempre se reestruturando, reorganizando suas informações internas a partir do contato com novas informações e estas, por sua vez, são alteradas por outras informações e outros sistemas com que entra em contato, num modo contínuo. Há de se conectar com o pensamento científico para observar e contemplar a dança. De um tempo relativo, sujeito a diferentes olhares de visões de mundo variáveis, a dança trabalha com um tempo fugaz: novas configurações dessa arte, conectadas com a idéia de que o segundo seguinte sepulta o anterior, estão mais preocupadas com os processos de composição que com a obra terminada. Há de se entender a dança através de um novo ser e estar: a perspectiva da mudança a todo instante, em toda parte. Se o movimento não se repete nunca da mesma forma, é de se pensar que a dança faz parte de um mundo em eterna (trans)mutação. Essa idéia se conecta com os estudos de grandes cientistas de nosso tempo, como a teoria quântica, dentre eles Stephen Hawking (2002). O movimento produzido pelo corpo é sempre novo e por mais que se busque repetir uma ação, ela é – a nível quântico – uma informação já transformada no corpo que a produziu que também já é outro no instante seguinte. Deve-se pensar que o corpo não envelhece, mas se reconfigura, num constante processo desde a concepção. Dança é movimento no tempo e espaço, parâmetros que implicam em instabilidade e desconforto para os corpos que desejam estar em segurança. A inquietude do viver é advento de uma nova percepção do mundo e da dança: rearranjos e o balançar do corpo na linha do tempo. Renegociações: é necessário (re)ver o mundo atual e a dança com o olhar da mudança, ao invés de se valorizar nas intercorrências da morte. Martha Graham (1993) fala que as mortes do bailarino são duas: a primeira sendo aquela quando o corpo, em vida, não pode mais executar as ações que deseja. Essa visão parece ser saudosista do corpo de outrora, assim como o lamento dessa mudança inevitável:

Eu não tinha este rosto de hoje/ Assim calmo, assim triste, assim magro/ Nem estes olhos tão vazios/ Nem o lábio amargo./ Eu não tinha estas mãos sem força/ Assim fracas e frias e mortas/ Eu não tinha este coração/ Que nem se mostra./ Eu não dei por esta mudança/ Tão simples, tão certa, tão fácil:/ - Em que espelho ficou perdida/ A minha face?[1]

Graham lamenta a perda de possibilidades de movimento pela idade avançada: a coreógrafa não abriu o olhar para perceber que algumas experiências poderiam ser limitadas, mas, outras, poderiam ser descobertas. Seu sistema técnico-estético privilegiava movimentos amplos e virtuosos, o que uma senhora de setenta e seis anos – idade que tinha quando resolver parar de dançar – fazia com muita dificuldade. A poesia “Retrato”, de Cecília Meireles, poderia ter sido expressa por Graham.
Entretanto, a coreógrafa não se recusou a ensinar o repertório que criou para outros corpos. Lamentavelmente, ela parou de descobrir algo novo para si mesma. Talvez essa pudesse ter sido mais uma grandiosa contribuição à arte da dança, como muitas que ela deu. Faltou à grande coreógrafa a perspectiva, o olhar da transformação e da reinvenção; ao invés disso, sobrou o lamento do perecer. O que muda, não morre. Sistemicamente falando, o sistema que não troca informações está fadado ao fim. Permanecer implica em alterar, em troca de dados, o que confere aos sistemas novas configurações. Diferente do movimento, qualquer dança pode permanecer, reinventada em corpos que também se reinventam. É preciso ter o olho da mudança. A transitoriedade da vida, tão presente na obra de Meireles, precisa ser entendida, não lamentada e aceita de forma pacífica e resignada. Que se veja a dança como celebração de vida, como arte do eterno movimento, de renascer constantemente. Que os segundos sejam sempre aniversários. Que a visão seja de concepção a partir da experiência aleatória, imprevisível, como se comportam as partículas quânticas, sem posição e velocidades definidas...

Ouço muitas vezes a expressão “dança da vida”. É um dito que me toca profundamente, pois o instrumento pelo qual a dança fala é o mesmo pelo qual a dança é vivida – o corpo humano (GRAHAM, 1993, pag. 11).

Graham, com esse testemunho simples e direto, resume tudo. Dançar a vida, celebrando a mudança: novo olhar, nova ordem contemporânea, não reduzida ao perecer.

 

Referências: FERNANDES, Ciane. Pina Bausch e o Wuppertal dança-teatro: repetição e transformação. São Paulo: Editora Hucitec, 2000.

GRAHAM, Martha. Memória do sangue. São Paulo: Editora Siciliano, 1993.

HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz.5ª ed. São Paulo: Editora Arx, 2002.

LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. 4ª ed. São Paulo: Summus Editorial, 1978. STUART, Izabel. A experiência do Judson Dance Theater. In: PEREIRA, Roberto; SOTER, Silvia (Orgs). Lições de Dança 1. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 1998. p. 191-204.


[1] “Retrato”. Cecília Meireles. Extraído de a href="http://educaterra.terra.com.br/literatura/poesiamoderna/2003/06/30/002.htm">http://educaterra.terra.com.br/literatura/poesiamoderna/2003/06/30/...>. Acesso em: 22 ago. 2011.

ARTHUR MARQUES DE ALMEIDA NETO. 23/11/2011.

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